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old boy
O escorpião
Vi, não nego, mas esqueço
Ponta bruta, afiada, dolorosa
Era alta, só me via ansiosa
Vontade, ânsia, medo
Me apertava, me apertava inteira
Belo, incrível, mas impiedoso
Fobia, sabe, é admiração
É poético, e letal, o veneno
Tremi, em pânico, tremi
Tentei fugir, mas estava presa
Meu corpo me parava? Sua estreiteza
Limitados corpos, invasor frenesi
Admiração? Puro medo, frustração
Trauma e auto-destruição
Estava intacta, estava
Mas aleijada
Chorei, chorei, pelo que podia ter havido
Chorei porque choraria
Fui arrombada, e quedei
Enrolada, assustada
Estava inteira, mas não me via
Minhas mãos não respondiam
As pernas, ah, as pernas
As teria amputado sozinha
Fraca, incapaz, trêmula
Impotente, inútil, pequena
Morta, morta apenas
Inútil, inútil, inútil
E covarde.
O corpo é um fardo.
Do jardim, os excrementos
Hoje feias, putrefeitas, enterradas
Sinto fezes do amor que me encorpava
Não morreram; defecaram
Suas brancas pétalas no chão
Marrons, nojentas, esquecidas
Cheiro de dejetos, restos sem vestígio
A grama pálida mergulha em lama
Um aterro sanitário, meu jardim
Abelhas – moscas
Minhocas – larvas
Mariposas
É primavera, as cobras se entrelaçam
Escorpiões se beliscam, se abraçam
As aranhas se perdem em seus braços
Minha terra, como nunca, absoluta
Desaba, orgulhosa, no esgoto
Desaba, sobre mim, em meu banho
Minha terra, minha casa, meu banheiro
Minha terra, minha casa, meu banheiro.
Presentes
As pessoas te trocam com facilidade. Uma paixão é substituída por outra – mas a tua história não é mais lembrada. A paixão que já não te dão, poderiam, apenas por respeito, dar-te como amor. Como consideração a tudo o que foram juntos.
Mas algumas pessoas só conhecem o imediato: presentes, risadas e paixões.
A Pedra.
Sobre o endurecimento de meus ossos:
Meu interior não está frio, que gelo também é água – o homem frio é frágil, e não é nada além de sua frieza. Minha estrutura se mineralizou. Esquenta, esfria… Mas sempre firme -
inabalável.
Não sei o que quero. Terminamos algo com o intuito de começar outro… E no fim só resta o luto pelo que findou, e a vontade irracional de voltar. O novo…? Não estamos preparados, e ele está tão distante… Novos começos são mais fáceis, e parecem iminentes quando inviáveis. Mas a viabilidade concretiza a distância… O medo vem, quando nos libertamos, e o alívio mal vive antes de virar lamentação. O que prendia faz falta por mero hábito e segurança. A prisão, à distância, também vira nostalgia… Era triste, mas previsível.
A ele.
Não sei o que dizer a ele. Com o fim, me sinto, enfim, eu mesma; acarinhada por meu próprio olhar… Tanto demorei para isso.
O que lhe digo? Digo-me que me sinto… Não plena, mas densa em minha pequenisse. Pequena o suficiente para me abranger.
Tenho medo de dar meus olhos ao futuro. Mas já não dói tanto sucumbir, fugir um pouco, para sentir essa coisa pequena, concentrada, que cabe em mim e não é nada além de suficiente. Antes era tão grande… Muita coisa, muitos assuntos e pensamentos. Metia os pés pelas mãos: era mais do que podia.
Suficiente. Agora apenas — suficiente.
Ateísmo
Deus ri de mim… Boto mais fé em mim do que Ele. Deus tem tanta fé em mim quanto eu nele.