Favor, gratidão e correntes
favor: palavra que deveria ter significado chapado e definitivo, mas que no Brasil ganhou um significado tão distante e mais usado que o significado original, ainda que interpretado na palavra solta, na fala se perde totalmente. O original, é a ação gratuita. O brasileiro é uma ação que te deixa numa dívida subentendida: a gratidão. Outra palavra a ser deturpada de maneira lastimável.
Liberdade
Liberdade é, como todas as palavras subjetivas de conteúdo criado por cegos, uma palavra que fascina. Somos apresentados a ela como…Nem se sabe ao certo dizer. Traz-nos felicidade e nos deixa sem nenhum tipo de preocupação ou frustração; não temos limites, fazemos tudo. No entanto, tão óbvia e espontânea quanto as palavras “sim” e “não”, nunca uma pessoa comum reflete acerca dela e a frase que acabo de compor, a essa pessoa, não seria possível. Não se assimilam fragmentos, o indivíduo sabe que isso ou aquilo é liberdade, mas nunca parou para entender o que há em comum entre os elementos. Assim corre, frenético, atrás de um ideal que desconhece, mas que alcançará, postulando meios que não necessariamente fazem sentido, sem nenhuma possibilidade crítica e construtiva.
Um filósofo nos propõe, enfim, a pergunta: o que é? A alguns, passa ignorada e se faz esquecida. Outros a dizem inútil, e a lembram como aspecto de um plano paralelo. Enfim, alguns poucos se propõem a respondê-la… Dentre estes, uns encontram o significado e jamais assimilam a nada, e não dão a ele, de fato, nenhum teor prático. Esta ínfima minoria que resta há de se deparar com o horror: ela não é possível. Caos, lágrimas e a maldita esperança humana, que nunca cessa de trabalhar. Se não se pode viver com a realidade de que a palavra dos sonhos não se concretizará, mudemos seu significado, ora lógico! Então procuram, de todas as formas, conciliar ao termo o que é possível (em teoria…) de se alcançar, mas de modo que ainda seja possível enganar-se e dizer que é o mesmo conceito. Então, ficam felizes dizendo “liberdade é meu círculo de ação onde não interfiro no círculo alheio” e outras baboseiras.
O meio pelo qual o homem se expressa é o da palavra. E como, Senhor, ele dá lugar a falácias. Dá tanto que nem sei por que existe essa palavra, qualquer discussão de fundamentos mais subjetivos cairá, em algum momento, numa falácia, sem que ninguém jamais se aperceba dela. De qualquer forma, nomear parece significar não só conhecer, como também dar todo o sentido indiferentemente de qualquer razão. Então, eu me frustro porque nõ posso alcançar aquilo que tanto almejo e, ao invés de arranjar outra meta – caminho muito mais tortuoso – eu invento algo que falaciosamente possa se parecer com aquilo e dou-lhe o mesmo nome. Fim do conflito, é a mesma coisa, posso continuar a procurar meu sonho sem nem mesmo mudar os meios de alcançá-lo.
Por que não admitirmos? A liberdade é uma palavra de propriedade absolutamente irracional e infantil, inalcançável. Podemos admiti-la como um mero sentimento, (afinal a definição que dei acima é apenas uma possibilidade, sendo que ambas satisfazem a aura da palavra) e, então, encará-la como algo não a ser alcançado e que não será permanente. Que, de certa forma, constitui uma completa reviravolta no modo de encará-la e choca. Ou pode-se admití-la como impossível sob todos os ângulos e arranjar outra meta. Ainda sustento que liberdade é um mero sentimento e, assim como a felicidade, não se deveriam arquitetar meios de se chegar a ela. Quanto à palavra que acabo de apresentar, apenas um adendo: ela é deliberadamente um sentimento, apenas, somente, e não há absolutamente o que se discutir sobre ela. Mas é interessante, de qualquer forma, indagar-se por que a palavra “felicidade” encontra-se por convenção na esfera dos sentimentos e “liberdade” não. Pois eu bato o pé no chão por que a liberdade não passa do meu sentimento de leveza sobre algo, mas eu percebo que contrario a ordem da própria palavra e que a modifico também. Talvez seu significado seja impassivo de coesão nos tempos atuais, mas o tivesse sido antes. Ou, quem sabe, ela meramente não faça mesmo sentido…Afinal, as palavras não nasceram na época do culto à razão. Muito provavelmente é a esse fato que se dá a responsabilidade de todas as falácias que tanto me intrigam.
O único modo, ao que me parece, de fazer com que essa palavra faça sentido é fragmentar seus significados, como tem mil a palavra “chapa”. Mas tenho certeza de que esta é a opção, dentre todas, que mais desagrada… Porque ela não deturpa a liberdade, tampouco a diz impossível… Meramente, suga toda a sua força. E isso sim é revolução. E isso sim, nos mata.
A alma do homem sob o socialismo (anotações)
Wilde: somente o indivíduo pode ter cultura. Déspotas, por serem indivíduos, a tinham. Plebe, massa, não tem.
Fale-me
Quem está aí? Me fala, me chama. Bate à minha porta. O que quer? Corre em círculos por entre as sombras. Eu desconheço, e temo. O vazio. Não sei o que é ou como pode ser. Mas me fala, e existe, mesmo sendo o nada e ausência de tudo.
Quem está aí? É minha alma, que se pulveriza na claustrofobia do hall, trancada para fora-dentro de casa. É minha alma, que ontem à noite, jazia esquecida.
A cadeira
Esta sala é um cubículo.Há uma cadeira, disposta devidamente voltada para mim, pouco inclinada na perpendicular de um canto. Me olhando. A televisão é cortada pela sombra geométrica da estante. Que estala. Há uma estátua negra, uma moça quase nua, no sofrimento da violação. Ao lado da cadeira, uma estante. Com gavetas, que não sei quem são. Mas que falam comigo toda noite; mesmo quando estou no quarto, a cabeça coberta, a mente furtiva. Sons abstratos, atropelando-se sempre. A cadeira sempre me aguardando. Atrás dela o arranhador para gatos, os quais vejo às cores do tapete. A cadeira, a seu modo, tem olhos. Não são olhos de gente, de animal, e não são, olhos, mas me discorrem como de felino. Me apalpam, me exploram e desnudam, eu impotente. Em meu íntimo inviolável, apenas me entrego. À sua guarda, choro. Há dor. A penetração em meu ser é total e intensa, quanto inimaginável. E ela nem se mexe para isso. Nem mesmo vive para isso. Apenas, sua existência voltada para mim acusa, e envergonha. É inanimado, eu sei. Mas nunca, em uma vida, fui tão massacrada como por esta cadeira, em que devia estar sentado alguém e que detém um vazio constante, consolidado, vivo, assustador.
O urubu
Há-me, o silêncio, a janela. Fechado por sua moldura, vive não-aqui o escuro. Lá, eu desconheço. Não assimilo senão os estalos da madeira, que todas as noites em diálogos maçantes ameaçam me desmoronar. A passagem, que tanto ignoro sempre, cobre o mundo. Pulsam vidas não-aqui, presumo. Quais serão, como. Baterão asas de corvo e pensarão como o diabo, terão por hobbie arrancar-me o peito… Ou sejam, apenas, espectros incompreensíveis e indiferentes. Não-lá, me traga. O breu, denso e aprisionante, pulsa não-cá. As batidas, ressoantes, constantes. Voltas e revindas, reviravoltas idas, tum, tum. Tum, tum. Tum, tum. Tum, tum; tum tum – tum tum tum
Tum tum tum. Tum; tum. Caiu o vidro, a noite invadiu. Os cacos à minha vontade. O frio, aqui, agora. A queda de um urubu morto – ele me abraça. Frio. O silêncio do ar, o som intransitável no sólido, concreto. A mente não acompanhou a velocidade, ficou para trás. O urubu morto, abraça. O urubu morto, ama. Liberta, enfim, por suas asas negras…Amo, o urubu morto. Amo, com a intensidade de uma queda. Tomei-os, os braços…Eles se levantaram, e amaram também; voamos. Despencamos.
Consumimo-nos, antes de chegar ao chão. Carcaças devoradas em si…Malcheirei, putrefi-me, desintegrei – ao mesmo tempo: era espaço. Amamos, amei. Como só você quis que amasse, com toda a devoção do medo e da convulsão dos dias que você tornava noites. Minha sombra, meu fascínio. Meu urubu.
A (rósea) Alma do Homem sob o Socialismo
O homem abraçado pelo sistema socialista, segundo Oscar Wilde, viveria no além do paraíso. Os românticos, como o tão por ele citado Byron, não teriam mais motivos para buscar a complitude na morte, nem os católicos para correr pela salvação. Dez minutos de socialismo valeriam uma eternidade no inferno, se é que me entendem… Mas não resultaria em chamas eternas, ah, não. Nesse sistema, todos seriam bons cristãos, posto que ele próprio assim os moldaria. E não haveria necessidade, em absoluto, de se haver uma religião cristã para salvar a convivência.
O livro prende a atenção do leitor, de início, com afirmações pertinentes e deveras interessantes. Dar esmola é contribuir com a miséria, a moda do ’pensar no miserável’ é qualidade capitalista, o capitalismo não exalta o ser, mas sim sua fusão com o ter etc. Somos abatidos por palavras que nos guiariam pelos caminhos da análise crítica e da denúncia, com paradas em mil e uma novas verdades antes impensadas e, ao final das primeiras páginas, acertados por uma muralha de devaneios e sonhos.
Muito piedoso e condizente com a época do ‘entendendo o próximo’, Wilde protege o criminoso. Alega que este não passa de uma vítima da sociedade e que, em condições materiais de existência dignas, seria uma pessoa íntegra. O rico e o pobre, todos, são vítimas da ideologia do acúmulo de bens, que não os permite ser o ideal de homem que o autor tanto almeja: o indivíduo peculiar em si, sem nenhuma preocupação. O homem deveria ser autêntico, ser-se, sem mentiras.
Curioso que, para dar forças à sua crença, Wilde faz um paralelo com os ensinamentos e atos de Jesus Cristo. Interpreta sua mensagem como sendo “sê tu mesmo” e basta. Qualquer bom leitor deve perceber que o “não mintas” de Cristo, apesar de absoluto, pressupõe o complemento “e que tua verdade seja a minha”. Ou seja, criemos uma legião de pessoas tão sinceras quanto o messias e a ele tão estarrecedoramente idênticas… Que é não somente ao que Wilde visa, mas também a natureza humana segundo sua visão. No decorrer da obra, somos arranhados por sua profunda crença no bom selvagem, ou mais que isso, no selvagem cristão. O homem no socialismo, onde teria a plena liberdade para tudo, seguiria de acordo com os ensinamentos de cristo, mesmo que a religião católica não vigorasse sobre sua cabeça, segundo as próprias palavras do autor.
E no meio desse caos massificado, a máxima expressão do individual se estabelecerá. Apenas me pergunto como. Sobra, no ser, a singularidade de pensamentos conjunturais, reflexões pessoais e afins, ou seja, trabalho intelectual, que aliás o autor tanto exalta e diz ser o importante. No entanto, por experiência própria ou observação de outrem, sabe-se bem que o que movimenta a reflexão é a imposição de um problema. Nenhum amado amante vai querer desmerecer o amor como disforme e sublime para algo acerca do que se reflete. Ele refletirá sobre o amor quando dele se vir privado. A pergunta apenas se coloca quando surge a dúvida, e a dúvida brota da inquietação, por Wilde tão execrada. Então onde, no mundo dos sonhos desse inglês, se encaixaria a individualidade? Ademais, o que o faz crer que um indivíduo que nunca existiu é o máximo do ser humano? E, se ele crê nas condições materiais de existência, como pode crer numa essência que precede a existência? Ele próprio admite que o bandido, em outras condições, não o seria; que o rico, em outras condições, roubaria. Mas, absolutamente livre do mundo, o homem seria um cristão. Como se livra um homem de um contexto? Como dizer que o socialismo não seria também um contexto, mas uma condição absoluta? E mais importante, como, raios, chegar a esse estado tão almejado? Parar de desejar, único meio. Os budistas o tentam há séculos, sem sucesso.
Enfim, Oscar Wilde tinha a inteligência para ser um grande crítico, mas que deparou-se totalmente ofuscada com uma imaginação eufórica e doentia. Ah, como os sonhos acabam com um ser humano.
T’Esvaindo
Aspirei teu cheiro com todo o desespero que me tragava,
para guardá-lo em meus pulmões
e morrer de asfixia.
Medicina à Esquerda
É incrível como tudo virou mercadoria, de fato. Ouvia a conversa de minha mãe, pneumologista – única informação relevante: formada em medicina. Os médicos não podem atuar fora de seu estado, segundo o Conselho Regional de Medicina, estando sujeitos à cassação de sua licença ou pagamento de uma multa. Mas o que, nos céus, significaria isso? Sem dúvidas, mais um meio de extorquir dinheiro. Acontece que os médicos abaixam a cabeça para isso, ignorando todo o tipo de ética profissional e mesmo de mobilidade própria. A troco…?
O quarto ano de medicina, dizia ela em outro momento, é constituído de bárbaros. Pulam de um lado para o outro, sem nenhum interesse na matéria, brincando. Medicina. Aliás, USP. Como todos os outros alunos de qualquer faculdade; acontece que para uma profissão que envolve tanto estudo, dedicação e, principalmente, uma responsabilidade estapafúrdia, esse tipo de atitude choca. O que faz alguém adentrar nesse mundo, passar na USP, por deus, para não ter um mínimo de interesse nas aulas que compõem o conhecimento relacionado à profissão?
O médico nunca passa fome. O médico, aliás, sempre vive num padrão de vida de no mínimo classe média.
Formam-se profissionais apenas interessados no dinheiro, atraídos não pela área em si, mas por uma eliminatória do que ‘eu desgosto menos’, ou mesmo babosos pelo pomposo titulo de ‘Doutor’. E, com os densos limites proporcionados pela mais absoluta mediocridade que os manipula/ou/rá, o medo de perder a clientela do trabalho alheio ao emprego fixo deságua.
E, então, podemos voltar aos ditos ultrapassados filósofos contratualistas que, mesmo em lhes faltando uma óbvia análise história, tiveram seu mérito. Pela segurança dessa maioria lastimável (olha aí Hobbes), concretizam-se os limites, num acordo; a concorrência não pode ir além daquela já estabelecida, do contrário haverá falência dos lucros adicionais. Desse modo, manifesta-se um extremo desagrado pela atuação de médicos adicionados ao raio de pacientes em potencial. Ademais, o hospital, como instituição, é naturalmente capitalista e obviamente não seria ele a fugir dessa linha de pensamento.
Desse absurdo eu pude, enfim (que já não era sem tempo), admitir que mesmo a medicina está perdida nesse mundo onde, cada vez mais, a moral, o coletivo e a humanidade se perdem em um ideário virtual de mar de dinheiro que, apesar de ser água, não dá de beber.
Terminais
Na casa, na cidade. Passavam metrôs, ônibus, carros. Mas principalmente metrôs. E seus sons estridentes, os gritos dos trilhos e os furacões que se formavam com sua chegada soberba. Abriam-se as portas, pessoas se perdiam. Eram demais, muitas, realmente. Períodos curtos, sem vírgulas ou símbolos mais complexos que um ponto final a cada estação. Com ele, ao menos, todos sempre souberam mexer… Ainda que, por vezes, tardassem – e como. Antes era assim, os abusos eram nas “paradinhas para respirar” da quarta série, porque nada podia parar. Agora as frases são ligeiras por definição, mas entre uma estação e outra há uma vida inteira.
A senhora, esperando próxima à porta da Luz para sair, foi atropelada pela torrente afobada de pessoas que decidiram entrar. As da frente, peões, não tiveram culpa. Mas foram elas as que se lamentaram.
Talvez se a senhora tivesse entrado na distante frente do trem nada disso tivesse acontecido. Ela é mais vazia, sabem. Por vezes, enquanto a fartura da barriga do metrô ameaça culminar em uma diarréia (ou prisão de ventre), sua boca está tão escassa que desidrata. Aquele Halls de R$ 5,00, no entanto, a contenta. Muito.
A escuridão enfurnada debaixo da terra incomoda alguns. Está tudo inerte, afinal. Um homem no primeiro vagão, de repente, acordou inspirado: “é um frenesi de inércia, raios!”. Vem a próxima estação onde a luz cega toda a memória e em seguida, outra imersão ensimesmo.
A passagem pela catraca abre um novo caminho para toda essa gente. Ele é claro, e cheio de coisas. Livre do calor e assédio do vagão do meio, o trabalhador infeliz, que batera na mulher na noite anterior, pega o ônibus, na luz. Agora há o que se ver e muitas cores com que se entreter. Prédio referencial: um terço do caminho passado. Museu referencial: metade. Segundo prédio referencial: quase lá. Hermético, adentrou na fábrica de falsificação de tênis. Realizou movimentos repetitivos, cada um era sua vida. Entre eles, branco. O sinal tocou, ele enfim saiu. Bebeu, como sempre. Dormiu, ponto terminal daquele dia único, igual e imemorável para sua vida que era o instante seguinte àquele em que acordou, ou o instante em que tomou café, ou o momento em que entrou novamente no metrô, ou o desmomento de escuridão entre os pontos em que a memória é apagada e os em que ela não se constituiu.