Momento Universalmente Egocêntrico.
Sim, eu detesto vocês. Sentem-se no direito de quê?! De se acharem bons sem o serem?! Odeio, mesmo, vocês. Superestimem-se no inferno.
Só trato com respeito a quem respeito. Podem se achar, à vontade, faz bem e a falsa modéstia deveria ser socada goela abaixo de quem a profere. Mas se achem em seus apertados lugares. A verdade mesmo: mexam-se apenas se forem maiores do que eu. Só ganha meu respeito quem se coloca em seu lugar, podendo este ser o camarote, meu vizinho ou atrás da porta.
E quem cai nesse lodo fétido de borboletear com asas sem-graça será perseguido, perseguido por mim até a morte. Sou nociva a essa laia – eu mato mesmo. E mato com classe, ou horror para os observadores. DESTRUO. Faço se afogarem na lama em que os vejo até o pescoço, para depois pisar em suas cabeças com meus pés leprosos e sujos. Enquanto o faço, apenas prazer…
Depois, remorso. Cedo mais um membro à lepra que se alastra. Mas quero disseminá-la… E enterrar em asco todos aqueles que se recusam a procurá-la por si sós.
Colombo…?
Faça-me parar de tentar
Ver além do horizonte
Pois que aos olhos a terra não é redonda
E eu desisto de navegar
Sendo que há água mais lá…
O além do horizonte é dos olhos de quem tem alma;
de quem sonha, de quem espera.
Receio
te quero p’ra sempre
ao fim comigo
Mas olho o sempre
E ele é infinito;
Sem fim, não existo
E irreal é o infindo
O Direito à Parcialidade
O Direito à Parcialidade
Clamo o direito ao parcial
Quero exercer minha liberdade
Liberdade de julgar
De ser maniqueísta
De poder não compreender
E poder ser incompreendida.
Porque as opiniões vagam soltas
Para serem sensatas ou não
Alheias ou não
E é aleatório.
Imploro, suplico pelo direito
De poder achar algo mais
Do que a velha fala recente:
“Vamos entender a todos
A todas as culturas
Ser imparciais
E coletivos.
Vamos achar tudo
E não achar nada”.
Chega a tal ponto que até a ciência começa a aderir.
E por que vemos isso como um progresso?!
Devaneios soltos
*O bode na sala? Não suportaríamos mais que uma mancha.
*Nada é natural ou principioso ao ser humano. Ele nasce volúvel.
*E ainda há quem se dê ao luxo de acreditar nas pessoas.
O Segredo
O segredo é ser intransigente. Todos respeitam – ou ao menos cedem a – pessoas intransigentes. Afinal, muitos o são, e ceder se torna nada menos do que sucumbir.
Sobre a noite
À lua: tás brilhante hoje!
Às estrelas: tais peticas hoje…!
Ao vento: tás revolto hoje…
Aos céus: tais assim, que nem sempre.
Boa noite.
***
Há tempos, esqueci-me de ti. Joquei-lhe os sonhos, ao que te deixava. Amores, esperanças, todos em ti atirados, culpa de minha irreverente ingratidão. Quanto mais me fugias da mente – ou fugia ela de ti – mais lhe rogava minhas peças… Fragmentos de gente, ou complementos: pedaço fui eu sem ti e tudo o mais o que atraíste. Os caídos em minha caminhada só, tu achaste e me roubaste de consciência limpa. Do que a ti lancei, ainda sem lembrar-te, te apropriaste por inteiro. Sabias que não era teu. Mas engoliste.
Vislumbrei hoje umas frestas, por ocasião vi-te também. Tás bela, lua. Tais novas, estrelas. Tás pleno, meu céu… E compartilhamos, enfim, minha completude.
Publicidade
“Antes de ser selecionado, selecione a faculdade”
Ou algo assim.
Peguei esta frase não para discursar sobre o ensino como produto que se almeja consumir, nem para refletir sobre a maneira inescrupulosa como a publicidade age. Selecionei esta frase porque, na escada rolante do metrô, a vi, e ela me fez pensar. O que está subentendido nela? É simples. O complemento em que ninguém precisa pensar ou mesmo perceber é “você vai escolher esta”, e é esse o complemento que nos leva estupidamente a pensar que aquela faculdade é a que queremos. Mas por que essas duas frases nos levam a concluir isso? Parece-me uma afirmação sensata e geral, a conclusão que se é tirada é de conhecimento dos publicitários, mas ainda assim na frase em si não há nenhum encaminhamento que nos leve a pensar assim. Não há nem mesmo abaixo “essa é para você”.
A questão é que todos sabem que a propaganda sempre falará bem de seus produtos. Portanto, o único caminho lógico a ser feito é de que “e obviamente digo que é esta a sua, afinal, sou propaganda e falo dela”. Não lhe é curioso como funciona a mente humana? Se sabemos que a publicidade falará sempre bem de seus produtos, em teoria deveríamos desconfiar. Mas não… Não assimilamos. O raciocínio funciona do modo mais primitivo possível: “qual faculdade será? Ah, eles sempre falam bem de si, então é daquela. Ah, aquela é a boa”. A primeira resposta que nos vem é absorvida. Também cairíamos nessa conclusão se pensássemos por um outro viés; a dúvida de qual seria a faculdade que eu tenho de escolher surge e, ao ver o nome da faculdade logo abaixo, tomo-o como resposta. Mas nego que a mente funcione de maneira tão infantil e preguiçosa.
O fato de estarmos acostumados à parcialidade da publicidade nos dá a resposta de a que se refere a pergunta. E, em nossa preguiça ou impulso, apropriamo-nos da solução do outro, pois que isto é mil vezes mais fácil do que se procurar uma própria e mal nos importamos com a lacuna que nos é deixada, tanto do sentido desse raciocínio quanto do nosso próprio bem estar. É incrível o que não faz o imediatismo, a preguiça e a necessidade de uma resposta pronta e rápida. E o pior é que a lucidez dos publicitários é tanta, que nos deixam com a impressão de que fomos nós que chegamos a essa conclusão…”é necessário que VOCÊ escolha a faculdade”. Esquecemos que chegamos àquela por meio de um raciocínio alheio, do conhecimento do que é a publicidade e, de repente, nos apropriamos da idéia como se tivéssemos efetivamente raciocinado “qual será a faculdade que eu vou escolher”, pelo mero fato de atribuirem-nos em tese a escolha. É impressionante, impressionante.
A genialidade humana me fascina e assusta.
Tudo bem que os publicitários que fizeram isso provavelmente não faziam idéia de tudo o que eu disse, apenas seguiram uma linha de frases como essa que já existe há tempos.