Sob o Chapéu


Muro de papel

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Janeiro 30, 2008

            O muro de papel, branco, cego. Que cega em sua cor furtiva. Ele é fino, e de tão frágil, impenetrável. Inabalável. O vento acha que o balança, mas ele nunca caiu. Voou, certa vez… Grande, leve, branco. Tapou o céu, molhado de nuvens – o sol transparecia enrugado. Desceu, denso e pleno, planando; tirando-nos o ar, impondo-se sobre nossas cabeças. Não sei como, mas me enforcou. Meu ar morreu, eu estupefata. Sussurrou à agonia que me trançasse a garganta, e meu ser cedia. Meu ar não vinha. Os olhos arremessados por água, água de nuvem – a mente em branco, eu papel.

Sentir flor

Enviado em Poesia reflexiva por inanna.flores no Janeiro 30, 2008

Amo a flor

Desde que ganhei

Ou amei ganhar

Fato que sou feliz

 

Quando me caiu nas mãos

Amei sua cor amarela

E o fato de o ser mais do que esta

E menos que aquela

 

Ela cresceu e mudou

Mas não mudou de sentimento

Quando ficou menos amarela

Eu amava que era singela

 

As pétalas então caíram

Mas era ainda minha flor

Mesmo que não fosse mais dela

 

O vento a levou um dia

- Foi a faxina, é mera poesia –

Mas era minha ainda, mesmo morta

Mesmo ida

 

Porque nunca amei seu amarelo

Nem sua flor

Amei uma sombra cheirosa

Um sentimento de flor.

A Voz da Sabedoria

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Janeiro 28, 2008

Queria alguém que me protegesse,

Não que entendesse

Queria alguém que me abraçasse de cima,

Não que base me desse

Queria quem me visse como criança

Que se pusesse como adulto quando choro

E me dissesse as verdades absolutas do universo

Mesmo que eu não acreditasse

Não queria alguém que descesse comigo

Porque numa queda, por mais que se abrace

Ainda se queda, e morremos

Queria quem me olhasse de cima

Visse uma menina desamparada a ser guiada

que sou

E me dissesse com a voz enganadora da experiência

Que é bobagem, que sou pequena

E que, quando crescer, passa.

Enviado em Oitavas de mundo por inanna.flores no Janeiro 26, 2008

deve-se saber falar a língua de quem vc contra-argumenta

Enviado em Oitavas de mundo por inanna.flores no Janeiro 26, 2008

Falar outra língua é essencialmente atuar.

Compreensão

Enviado em Oitavas de mundo por inanna.flores no Janeiro 26, 2008

Entender, para quem é vivo, é se identificar.

Para as máquinas basta que seja lógico.

Apenas dúvidas

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Janeiro 26, 2008
Se eu alegar saudades

Você crê?
Se eu disser que dói
E que dói somente
Vai entender?

Ignorará quando eu disser “fica”,
Ficará pela reticência?
Verá em palavras desculpas
Para impulsos perdidos?

E se eu segurar sua mão
        de leve
Apenas
Será capaz
 Será ?
De cambalear
Por toda uma fraqueza?

 …
Mas eu sei que sim.

Queria-te em minha vida real, fora da euforia do dia.

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Janeiro 26, 2008

Queria apenas alguém para dormir de noite comigo. Alguém que entendesse meu sono e dormisse em minhas divagações. Que aceitasse minha insônia mais do que eu mesma, e a fizesse não passar de um piscar de olhos. Uma pessoa que acompanhasse minhas inspirações bobas em silêncio e amasse tudo o que eu produzisse, com verde sinceridade. A pessoa que seria o público completo, cheio e único de minha solidão, para o qual eu não temeria falar – e nem precisaria. Queria que alguém fizesse de uma noite mil e uma, e me contasse histórias se visse que eu queria. Só queria que, de meus pensamentos de maior altividade e solidão, você fosse parte.

            Queria apenas que dormisse comigo.