Muro de papel
O muro de papel, branco, cego. Que cega em sua cor furtiva. Ele é fino, e de tão frágil, impenetrável. Inabalável. O vento acha que o balança, mas ele nunca caiu. Voou, certa vez… Grande, leve, branco. Tapou o céu, molhado de nuvens – o sol transparecia enrugado. Desceu, denso e pleno, planando; tirando-nos o ar, impondo-se sobre nossas cabeças. Não sei como, mas me enforcou. Meu ar morreu, eu estupefata. Sussurrou à agonia que me trançasse a garganta, e meu ser cedia. Meu ar não vinha. Os olhos arremessados por água, água de nuvem – a mente em branco, eu papel.
Sentir flor
Amo a flor
Desde que ganhei
Ou amei ganhar
Fato que sou feliz
Quando me caiu nas mãos
Amei sua cor amarela
E o fato de o ser mais do que esta
E menos que aquela
Ela cresceu e mudou
Mas não mudou de sentimento
Quando ficou menos amarela
Eu amava que era singela
As pétalas então caíram
Mas era ainda minha flor
Mesmo que não fosse mais dela
O vento a levou um dia
- Foi a faxina, é mera poesia –
Mas era minha ainda, mesmo morta
Mesmo ida
Porque nunca amei seu amarelo
Nem sua flor
Amei uma sombra cheirosa
Um sentimento de flor.
A Voz da Sabedoria
Queria alguém que me protegesse,
Não que entendesse
Queria alguém que me abraçasse de cima,
Não que base me desse
Queria quem me visse como criança
Que se pusesse como adulto quando choro
E me dissesse as verdades absolutas do universo
Mesmo que eu não acreditasse
Não queria alguém que descesse comigo
Porque numa queda, por mais que se abrace
Ainda se queda, e morremos
Queria quem me olhasse de cima
Visse uma menina desamparada a ser guiada
que sou
E me dissesse com a voz enganadora da experiência
Que é bobagem, que sou pequena
E que, quando crescer, passa.
Compreensão
Entender, para quem é vivo, é se identificar.
Para as máquinas basta que seja lógico.
Apenas dúvidas
já
Você crê?
E que dói somente
Vai entender?
Ignorará quando eu disser “fica”,
Ficará pela reticência?
Verá em palavras desculpas
Para impulsos perdidos?
E se eu segurar sua mão
de leve
Apenas
Será capaz
Será ?
De cambalear
Por toda uma fraqueza?
Queria-te em minha vida real, fora da euforia do dia.
Queria apenas alguém para dormir de noite comigo. Alguém que entendesse meu sono e dormisse em minhas divagações. Que aceitasse minha insônia mais do que eu mesma, e a fizesse não passar de um piscar de olhos. Uma pessoa que acompanhasse minhas inspirações bobas em silêncio e amasse tudo o que eu produzisse, com verde sinceridade. A pessoa que seria o público completo, cheio e único de minha solidão, para o qual eu não temeria falar – e nem precisaria. Queria que alguém fizesse de uma noite mil e uma, e me contasse histórias se visse que eu queria. Só queria que, de meus pensamentos de maior altividade e solidão, você fosse parte.
Queria apenas que dormisse comigo.