Sob o Chapéu


Sono

Enviado em Histórias c'algum intuito por inanna.flores no Abril 17, 2008

Acordou com um alívio atrás dos olhos. Era a melancolia da manhã.

            Levantar parecia algo tão distante, distinto… ou não, e levantou-se, tão leve que o ar matinal a rodou e ela tombou sobre o colchão. Era macio, não vira antes, e se afundou nele. Nem descansada a cabeça sobre o travesseiro, cochilou.

            De novo o explodido atrás dos olhos. Aquela sensação terna de quando, após a destruição de uma casa, senta-se incrédulo entre os escombros. A decadência de um lar que depois de um trovão só leva o mais puro dos silêncios, a calmaria.

            Ela poderia continuar sua passividade por… não sei, que é o tempo para um pedregulho num dia quente de deserto? Só que, na matina, fazia frio. Sentia os olhos, independentes, chorarem sem lágrimas. Mais um dia para se viver e ela não queria morrer, queria apenas não ter nascido: se à areia retornaria, por que de lá saíra? O pó é macio e estático. Coçou os olhos e reergueu-se.

            Sentiu na barriga um frio de aventura, os olhos se apertaram como acertados por uma rajada. E ela se curvou, curvou, até cair na cama em posição fetal. Ela não queria levantar, queria estar (modo infinitivo da paralisia), descansar, pegar forças para viver o dia, descansar, passar ao menos um dia sem cambalear a cada ameaça de se erguer!

            Deitada, com o coração forte no peito. Falava a respiração dura, espirrando areia, o corpo agitado de movimentos sutis e frenéticos. Queria espumar mas não chegara a tanto. Tremia que não chegava a suportar e procurava mais ódio do que podia. Havia o som dos carros e de seus dentes, rangendo, que não a largavam, e ela contraía os olhos, com vontade de gritar e chorar e espernear. Era cedo, ela não podia. Era de manhã e ela tinha que terminar sua tediosa encenação e se levantar. A verdade é que não dormira direito.

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Abril 17, 2008

É esse pudor de existir…

Chão

Enviado em Poesia reflexiva por inanna.flores no Abril 13, 2008

Meus pés sumiram
O chão os engoliu.
Também nunca soube se pisava sobre a sola ou sobre o chão.
Nenhuma atenção para lás
Se era chão,
se era pé
Era tudo ilusão.
Chão
Até a língua lhe reserva vocabulário escasso
Uma e nada mais. Solo é diferente…
É pesada a palavra, não? Bruta
Ah, nunca pensei sobre o peso do chão.
Ele é uma realidade tão distante
e tão real
que esquecida.
Sobre ele é que ando a vida toda
Se alegre, chão
Triste, chão
O quê, afinal?
A vocês, não sei.
Meu chão é o ente imune ao tempo
E às mudanças
Pois que o são.
É absoluto ao ponto de ignorado
A última verdade, onde piso
Que não me larga nunca, sempre.
Meu chão é pesado – e é gozado
que se estranhe dar peso ao chão. Ele é assim tão abstrato?
- e duro.

E ao querer fugir…
Ah, onde.

Dilacerada

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Abril 13, 2008

Meus nervos dilacerados. Dilacerada.

Dilacerada.

O indivíduo

Enviado em Histórias c'algum intuito por inanna.flores no Abril 2, 2008

Tombou no chão, o bebê torto e batizado pela gosma. A mãe pariu de pé e, assim que recuperou-se das ancas, foi pastar. Tortinho, perna sobre perna, cabeça perdida no emaranhado do corpo.

Viu o mundo verde e quis arrastar-se também. Perna voa, queda, enoza e ele sobe. Elas cedem e ele queda pela segunda vez em sua vida pontual.  Mas aí ele se lança, impaciente, ao arco do triunfo: tão glorioso, firme e certo, queria ainda andar! – rumo ao futuro ruminante de Bezerro Independente.

Marchou pelos campos, alheio, mastigando. Perdeu cedo a hombridade… Cresceu pouco. No meio do crescimento tropeçou e ficou manco de duas patas. Adulto, mirrado, desfilava rebolando. Teve todo o caminho, desde então, moldado por centauros finos, fracos e em minoria – mas infinitamente altos. De qualquer jeito, podia ainda arrastar sua manqueza e babar sua espuma verde.

Nascem outros tortos nalgum lugar, enquanto furtam-se adultos para fora do cerco dos centauros – com estes. O manco vai na massa, arrastada para onde ruminar é marrom.

Tombam de dor, tortos, de volta ao aconchego da virgem mãe. Eis o destino do gado.

Harry Potter na essência…

Enviado em Sobre obras existentes por inanna.flores no Abril 2, 2008

Henrique era órfão e muito coitadinho. Os padrastos faziam-no limpar a casa, lavar a louça e trabalhar para seus dois irmãos feios e malvados. Apesar de toda a sua boa vontade, batiam-lhe e o trancavam no armário quando ele, exausto, errava um pouco que fosse. Sinta pena.

Henrique, contudo, tinha um refúgio: seus pequenos amiguinhos animais, uma cobra e um gato que o entendiam muito bem e o ajudavam a não enlouqucer.

Certo dia, nosso pobre protagonista desamparado viu que seus tios lhe escondiam um convite! Ele brigou, brigou porque queria ir ao castelo de Róguartes, a que fora convidado e tinha direito! E quem sabe, lá, não encontraria um objeto de admiração onde afogar suas mágoas…

Depois da enfática negação de seus padrastos, ele correu choroso e amaldiçoado para seu jardim. Lá, seu gato se revelou uma idosa fada-madrinha chamada Minerva. Deu-lhe vestes chiquérrimas de bruxo e foram para o castelo.

Lá, Henrique curvou-se perante a sabedoria e sencialidade da boa e piedosa princesa Dumbledôra. Reconhecendo nos olhos do menino o forte coitado que já conhecia de sonhos e rezas, ela se apaixonou imediatamente.

Mas seu amor demoraria a se consolidar.

O reino encantado era assombrando por um monstro, cujo nome sozinho já causava horror. Esse malvado feioso queria loucamente a princesa e, ao saber que ela encontrava o amor num pirralho, ofendeu-se e decidiu agir: numa noite em que a beldade se descuidou, distraída com suas fantasias de umidade não ortodoxa, o dragão Valdemir raptou-a. Ao saber, nosso herói Henrique correu para a salvação.

Chegando lá, viu que o dragão a matara e ficou p da vida.  Começaram a lutar, uma competição de vida ou morte. Henrique venceu, ao jogar água no dragão, que derreteu por ter fogo em seu interior.

Quando voltou ao reino, foi proclamado rei e deixou para sempre a seu lado o róseo chapéu da princesa, que ninguém jamais esqueceu.

fim.

Declaração

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Abril 1, 2008

És minha falta de pudor.

Artigo: filmes e o estupro.

Enviado em Oitavas de mundo por inanna.flores no Abril 1, 2008

            É um filme com duas cenas de estupro. Uma não seria o suficiente. Desnecessário explicitar o nome – há tais cenas em filmes demais. Afirmação não passiva de discordância.

            Porque mostrar dor é o que faz boa uma obra, e pessoas inteligentes só vêem filmes penosos. Fascinam-me frases como “esse filme é muito triste, é muito bom, eu adoro”. Digo sempre que não sei até onde posso dizer que adorei algo que me contrai o estômago e me faz correr ao banheiro, mas admito a qualidade…

            Guerras, mortes, mutilações. E eu sempre agüentei o paradoxo. E vi, porque é um protesto, porque protestos devem ser vistos, porque não se pode ignorar a tristeza do mundo e porque protestos estão na moda. E é uma gracinha mesmo. Mas isso é outra história.

            Mas não.

            Nenhuma mutilação corporal iguala à auto-corrosão de uma alma. Muito poético – agora vamos repetir isso para todos os torturados traíras. E venham me dizer que foi imediatismo que eu cuspo na cara de vocês. Mas realmente, o ferimento do orgulho, da vaidade, de qualquer dessas coisas preciosas para o ser humano podem até levar a um suicídio – o menos doloroso possível, sempre.

            Junte-se a mutilação do corpo à tortura psicológica. Fica chato, não? E se elas não simploriamente andarem juntas, mas forem causa uma da outra num devorar infinito?

            Aí temos o estupro. O estupro, que somente diretores homens poderiam reproduzir em telas – que acham que estão protestando, que acham que estão mostrando ao mundo e ententendo toda a profundidade do silêncio. Uma dor profunda e íntima, quando compreendida, jamais será revelada atrapalhadamente em uma sucessão de imagens. Nenhum escritor publica seus diários – invadimo-nos apenas depois de mortos e carcomidos. Existem horrores que somente os totalmente estúpidos à compreensão ou um poço de fezes é capaz de reproduzir numa tela, papel ou mente alheia.

            Aliás, o estupro dá um bom atrativo, vocês homens adoram uma boa ceninha de violência sexual, e não adianta esconder a ereção com uma cara sonsa de incredulidade. E talvez tudo isso pareça apenas uma revolta de uma feminista deslocada, não é mesmo? Pra que todo esse alarde? Digam-me um filme em que segurem alto um pênis e um saco e os rasgue na tela, e talvez eu me cale. O homem sempre negou qualquer sentimento na mulher que não fosse dele também, e sempre pretendeu sua filosofia para todos os homens – que inclui mulheres. O resto é ilusão feminina, engano, e nunca diferença.

            E às mulheres que não foram deixadas no mínimo nauseadas, o poço de fezes.

Pouco me importa que o filme seja uma obra-prima e que o estupro constitua essa totalidade inestimável. Se as pessoas têm capacidade de suportar tal genialidade – loucura –, as pessoas me preocupam.

Talvez isto seja um Manifesto Feminista. Mas o que posso eu fazer se vivemos num mundo onde o macho-centrismo se esbalda a tal ponto que o estupro seja visto como uma brincadeira sexual de mal gosto?!

Vida

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Abril 1, 2008

[Do meu amigo Danilo, que é compositor mas também está me saindo um poeta...] 

Ah vida!

Vida minha, vida vívida, vivida

Essa minha vida tão…

Vida!

Nas imperfeições, vejo sua perfeição

Nas frustrações, vejo sua alegria

Dia após dia,

Ora noite,

Ora dia,

Como explicar, tanta felicidade

E repentina tristeza?

Cada dia

Um novo dia

Nessa minha vida…

Tão vida!

A meu viking

Enviado em Predominância emotiva por inanna.flores no Abril 1, 2008

Já lhe disse que te amo? Eu sei que já.

Já disse, também, que amo seu jeito honroso – honrável -, seu respeito, sua delicadeza e zêlo (como denominar de outro modo?). Admiro o patamar da pedra negra firmemente inerte, crescente… Impõe-se, mas curvilínea, mesmo sob o olhar analítico que a percebe poligonal (sendo ainda, o sorriso, o esticar de curvas sutis).

Linda, linda, linda, linda. Você me repetia; e repito eu também: lindo, lindo, lindo. Meu viking, guerreiro nórdico, eslavo, germânico – mas bélico. Criatura peculiar, dislexada de seu tempo e terreno, solitário em uma cultura que o enoja. Eu, dessa cultura alheia, descobri seu novo mundo. Tenho em mim algo de totalmente estranho e deslumbrante – estrangeiro.

Mais do que único, é o vestígio da idealização de um passado perdido(?), é mais do que único, é absolutamente singular.

E é

meu.