Sob o Chapéu


Artigo: filmes e o estupro.

Posted in Oitavas de mundo por Inna Pas-du-Tout em abril 1, 2008

            É um filme com duas cenas de estupro. Uma não seria o suficiente. Desnecessário explicitar o nome – há tais cenas em filmes demais. Afirmação não passiva de discordância.

            Porque mostrar dor é o que faz boa uma obra, e pessoas inteligentes só vêem filmes penosos. Fascinam-me frases como “esse filme é muito triste, é muito bom, eu adoro”. Digo sempre que não sei até onde posso dizer que adorei algo que me contrai o estômago e me faz correr ao banheiro, mas admito a qualidade…

            Guerras, mortes, mutilações. E eu sempre agüentei o paradoxo. E vi, porque é um protesto, porque protestos devem ser vistos, porque não se pode ignorar a tristeza do mundo e porque protestos estão na moda. E é uma gracinha mesmo. Mas isso é outra história.

            Mas não.

            Nenhuma mutilação corporal iguala à auto-corrosão de uma alma. Muito poético – agora vamos repetir isso para todos os torturados traíras. E venham me dizer que foi imediatismo que eu cuspo na cara de vocês. Mas realmente, o ferimento do orgulho, da vaidade, de qualquer dessas coisas preciosas para o ser humano podem até levar a um suicídio – o menos doloroso possível, sempre.

            Junte-se a mutilação do corpo à tortura psicológica. Fica chato, não? E se elas não simploriamente andarem juntas, mas forem causa uma da outra num devorar infinito?

            Aí temos o estupro. O estupro, que somente diretores homens poderiam reproduzir em telas – que acham que estão protestando, que acham que estão mostrando ao mundo e ententendo toda a profundidade do silêncio. Uma dor profunda e íntima, quando compreendida, jamais será revelada atrapalhadamente em uma sucessão de imagens. Nenhum escritor publica seus diários – invadimo-nos apenas depois de mortos e carcomidos. Existem horrores que somente os totalmente estúpidos à compreensão ou um poço de fezes é capaz de reproduzir numa tela, papel ou mente alheia.

            Aliás, o estupro dá um bom atrativo, vocês homens adoram uma boa ceninha de violência sexual, e não adianta esconder a ereção com uma cara sonsa de incredulidade. E talvez tudo isso pareça apenas uma revolta de uma feminista deslocada, não é mesmo? Pra que todo esse alarde? Digam-me um filme em que segurem alto um pênis e um saco e os rasgue na tela, e talvez eu me cale. O homem sempre negou qualquer sentimento na mulher que não fosse dele também, e sempre pretendeu sua filosofia para todos os homens – que inclui mulheres. O resto é ilusão feminina, engano, e nunca diferença.

            E às mulheres que não foram deixadas no mínimo nauseadas, o poço de fezes.

Pouco me importa que o filme seja uma obra-prima e que o estupro constitua essa totalidade inestimável. Se as pessoas têm capacidade de suportar tal genialidade – loucura –, as pessoas me preocupam.

Talvez isto seja um Manifesto Feminista. Mas o que posso eu fazer se vivemos num mundo onde o macho-centrismo se esbalda a tal ponto que o estupro seja visto como uma brincadeira sexual de mal gosto?!

About these ads

Uma resposta to 'Artigo: filmes e o estupro.'

Subscribe to comments with RSS ou TrackBack to 'Artigo: filmes e o estupro.'.

  1. chapelista said,

    Lock diz:
    ei, cena de estupro é o maximo
    não generalize
    cena de estupro feminino que não é
    ver um emo sendo estuprado é legal i.i


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: