Do jardim, os excrementos
Hoje feias, putrefeitas, enterradas
Sinto fezes do amor que me encorpava
Não morreram; defecaram
Suas brancas pétalas no chão
Marrons, nojentas, esquecidas
Cheiro de dejetos, restos sem vestígio
A grama pálida mergulha em lama
Um aterro sanitário, meu jardim
Abelhas – moscas
Minhocas – larvas
Mariposas
É primavera, as cobras se entrelaçam
Escorpiões se beliscam, se abraçam
As aranhas se perdem em seus braços
Minha terra, como nunca, absoluta
Desaba, orgulhosa, no esgoto
Desaba, sobre mim, em meu banho
Minha terra, minha casa, meu banheiro
Minha terra, minha casa, meu banheiro.
Mas pelo menos agora…
Não chorei dor, agonia, lágrimas não eram pedaços arrancados..
O choro foi calmo… escorreu fino e delicado, fluido, como a sargeta…
Ou um daqueles negócios de fazer cachoeirinha que ficam no lavabo.
Eu achava que ia morrer, mas que ainda assim ia agüentar.
Morrendo, desisti de agüentar e quis viver.
Presente Excuso
Dor saudade, nó, presente excuso
De amor vivo, dói dormente, oculto
Pulsa ao ritmo da pétala no vento
Tomba queda, voa, turvo
É nos ares que lateja o nome fosco
Da noite que cai, doída no escuro
Dói a lua, olho em catarata todo
Cego, alheio ao mundo, mas intruso
Incômodo, dor, lágrimas assaltam
Cai a chuva, chumbo sobre o muro
Cai a vida, no vento escuro e mudo
Preciso aprender: o maior meio de desabafar ódio é machucar o causador.
E isso não se consegue com argumentos. Só o silêncio arde como deveria.
Ao Criador, da Criatividade
[proposta de redação da escola: pegar uma música e a partir dela escrever uma narração que fosse o ponto de vista do "personagem" ao qual a música se refere. Tirei 9,0.
Música: Aquarela, de Toquinho e Vinícius]
Foi só quando pintou-se o sol que o céu pôde se ver (branco). Deus pode tudo criar, mas a cor só existe quando descoberta, e assim foi ela quem gerou Deus… Criança que as amava tanto e que tanto demorou a compreendê-las. No começo, na luz branca Deus não via o azul, e assim só pôde escolher branco para o céu.
Foi o sol meu repentino nascimento: o amarelo escorrendo sobre o céu, primeiro broto nessa vasta terra fértil… Que logo, logo em seguida, semeou em mim a infância do aleatório, descoberta das cores e formas num mundo. As sementes deram minhas sombras, sombras simples, ilógicas, o adubo que fez crescer a eterna plantação azul e restringiu o céu à criação de cores mistas, diferenciando meu nascimento amarelo…
A gaivota que me tornava pingou azul clara, de uma falha branca. E eu viajei tanto, e voei num mundo bidimensional sem jamais ter me visto mover. Que sensação, que ânsia pela natureza estranha! Pelos lugares em que vivi sem nunca ter chegado, cujos nomes me vieram sabe-se lá Deus como, que nem foram escritos… Istambul… De quem de repente me perdi. Foi quando lembrei de mim – lembrar de si é parar de existir -, vendo-me novamente num pedacionho azul do papel, inert, assistindo a perdas e sonhando reencontros… Sonhando alto, voando… Como criança. Sem lembrar de nada que não luvas e guarda-chuvas de papel em meu futuro.
Meu futuro, em suspenso. Vejo apenas borbulhar na aquarela o branco turvo do tempo, que o branco é a junção e a ausência de todas as cores.
Simples
Não agüento mais
Não agüento mais a frustração da paixão ardente que vc me deu
E arrancou – aspirou
Não agüento mais o vale de desejo que ela deixou, a expectativa de reavê-la
A espera por que vc me a devolva
A espera por que vc me acenda de novo
A espera, a ansiedade por que algo em mim ao menos se mova
Sem esse batimento monotônico, monótono
Sem que seja o tropeço da raiva que às vezes me assalta
Coexistente à minha inércia preparada a um bote
sob um sol forte demais.
Te vi demais
Descobri demais
Me fez progredir demais. Meus olhos doem.
Não agüento mais esse relacionamento de um só
Essa sua plana vastidão ensolarada
sob a testa densa e desabada, inteligente, que eu vira
Não suporto mais essa minha dependência em sua maciez e calor
Esse meu amor malformado por sua alegria plana
E minhas sessões solitárias de convencimento de que seu sorriso meia-lua significa noite
abstração
alma
Já me atirei no chão à procura de janelas em seus olhos
(tentei me convencer de que sua testa as escondia)
Atéia, já vendi a alma ao diabo
Mas a verdade é simples:
Você é simples.
Suas relações são simples, seu amor é óbvio
E como dependo do seu carinho comoventemente simples
E como rôo meus dedos pela superfície plana de seus olhos
Plana, sincera, simples
E como me dói ver que uma simplicidade tão tocante
É simples demais pra me envolver…