Harry Potter na essência…
Henrique era órfão e muito coitadinho. Os padrastos faziam-no limpar a casa, lavar a louça e trabalhar para seus dois irmãos feios e malvados. Apesar de toda a sua boa vontade, batiam-lhe e o trancavam no armário quando ele, exausto, errava um pouco que fosse. Sinta pena.
Henrique, contudo, tinha um refúgio: seus pequenos amiguinhos animais, uma cobra e um gato que o entendiam muito bem e o ajudavam a não enlouqucer.
Certo dia, nosso pobre protagonista desamparado viu que seus tios lhe escondiam um convite! Ele brigou, brigou porque queria ir ao castelo de Róguartes, a que fora convidado e tinha direito! E quem sabe, lá, não encontraria um objeto de admiração onde afogar suas mágoas…
Depois da enfática negação de seus padrastos, ele correu choroso e amaldiçoado para seu jardim. Lá, seu gato se revelou uma idosa fada-madrinha chamada Minerva. Deu-lhe vestes chiquérrimas de bruxo e foram para o castelo.
Lá, Henrique curvou-se perante a sabedoria e sencialidade da boa e piedosa princesa Dumbledôra. Reconhecendo nos olhos do menino o forte coitado que já conhecia de sonhos e rezas, ela se apaixonou imediatamente.
Mas seu amor demoraria a se consolidar.
O reino encantado era assombrando por um monstro, cujo nome sozinho já causava horror. Esse malvado feioso queria loucamente a princesa e, ao saber que ela encontrava o amor num pirralho, ofendeu-se e decidiu agir: numa noite em que a beldade se descuidou, distraída com suas fantasias de umidade não ortodoxa, o dragão Valdemir raptou-a. Ao saber, nosso herói Henrique correu para a salvação.
Chegando lá, viu que o dragão a matara e ficou p da vida. Começaram a lutar, uma competição de vida ou morte. Henrique venceu, ao jogar água no dragão, que derreteu por ter fogo em seu interior.
Quando voltou ao reino, foi proclamado rei e deixou para sempre a seu lado o róseo chapéu da princesa, que ninguém jamais esqueceu.
fim.
Sobre Nietzsche
O triunfo de Nietzsche foi transcender os limites do que constitui a própria noção do mundo:
ele subtraiu a palavra.
Favor, gratidão e correntes
favor: palavra que deveria ter significado chapado e definitivo, mas que no Brasil ganhou um significado tão distante e mais usado que o significado original, ainda que interpretado na palavra solta, na fala se perde totalmente. O original, é a ação gratuita. O brasileiro é uma ação que te deixa numa dívida subentendida: a gratidão. Outra palavra a ser deturpada de maneira lastimável.
Liberdade
Liberdade é, como todas as palavras subjetivas de conteúdo criado por cegos, uma palavra que fascina. Somos apresentados a ela como…Nem se sabe ao certo dizer. Traz-nos felicidade e nos deixa sem nenhum tipo de preocupação ou frustração; não temos limites, fazemos tudo. No entanto, tão óbvia e espontânea quanto as palavras “sim” e “não”, nunca uma pessoa comum reflete acerca dela e a frase que acabo de compor, a essa pessoa, não seria possível. Não se assimilam fragmentos, o indivíduo sabe que isso ou aquilo é liberdade, mas nunca parou para entender o que há em comum entre os elementos. Assim corre, frenético, atrás de um ideal que desconhece, mas que alcançará, postulando meios que não necessariamente fazem sentido, sem nenhuma possibilidade crítica e construtiva.
Um filósofo nos propõe, enfim, a pergunta: o que é? A alguns, passa ignorada e se faz esquecida. Outros a dizem inútil, e a lembram como aspecto de um plano paralelo. Enfim, alguns poucos se propõem a respondê-la… Dentre estes, uns encontram o significado e jamais assimilam a nada, e não dão a ele, de fato, nenhum teor prático. Esta ínfima minoria que resta há de se deparar com o horror: ela não é possível. Caos, lágrimas e a maldita esperança humana, que nunca cessa de trabalhar. Se não se pode viver com a realidade de que a palavra dos sonhos não se concretizará, mudemos seu significado, ora lógico! Então procuram, de todas as formas, conciliar ao termo o que é possível (em teoria…) de se alcançar, mas de modo que ainda seja possível enganar-se e dizer que é o mesmo conceito. Então, ficam felizes dizendo “liberdade é meu círculo de ação onde não interfiro no círculo alheio” e outras baboseiras.
O meio pelo qual o homem se expressa é o da palavra. E como, Senhor, ele dá lugar a falácias. Dá tanto que nem sei por que existe essa palavra, qualquer discussão de fundamentos mais subjetivos cairá, em algum momento, numa falácia, sem que ninguém jamais se aperceba dela. De qualquer forma, nomear parece significar não só conhecer, como também dar todo o sentido indiferentemente de qualquer razão. Então, eu me frustro porque nõ posso alcançar aquilo que tanto almejo e, ao invés de arranjar outra meta – caminho muito mais tortuoso – eu invento algo que falaciosamente possa se parecer com aquilo e dou-lhe o mesmo nome. Fim do conflito, é a mesma coisa, posso continuar a procurar meu sonho sem nem mesmo mudar os meios de alcançá-lo.
Por que não admitirmos? A liberdade é uma palavra de propriedade absolutamente irracional e infantil, inalcançável. Podemos admiti-la como um mero sentimento, (afinal a definição que dei acima é apenas uma possibilidade, sendo que ambas satisfazem a aura da palavra) e, então, encará-la como algo não a ser alcançado e que não será permanente. Que, de certa forma, constitui uma completa reviravolta no modo de encará-la e choca. Ou pode-se admití-la como impossível sob todos os ângulos e arranjar outra meta. Ainda sustento que liberdade é um mero sentimento e, assim como a felicidade, não se deveriam arquitetar meios de se chegar a ela. Quanto à palavra que acabo de apresentar, apenas um adendo: ela é deliberadamente um sentimento, apenas, somente, e não há absolutamente o que se discutir sobre ela. Mas é interessante, de qualquer forma, indagar-se por que a palavra “felicidade” encontra-se por convenção na esfera dos sentimentos e “liberdade” não. Pois eu bato o pé no chão por que a liberdade não passa do meu sentimento de leveza sobre algo, mas eu percebo que contrario a ordem da própria palavra e que a modifico também. Talvez seu significado seja impassivo de coesão nos tempos atuais, mas o tivesse sido antes. Ou, quem sabe, ela meramente não faça mesmo sentido…Afinal, as palavras não nasceram na época do culto à razão. Muito provavelmente é a esse fato que se dá a responsabilidade de todas as falácias que tanto me intrigam.
O único modo, ao que me parece, de fazer com que essa palavra faça sentido é fragmentar seus significados, como tem mil a palavra “chapa”. Mas tenho certeza de que esta é a opção, dentre todas, que mais desagrada… Porque ela não deturpa a liberdade, tampouco a diz impossível… Meramente, suga toda a sua força. E isso sim é revolução. E isso sim, nos mata.
A alma do homem sob o socialismo (anotações)
Wilde: somente o indivíduo pode ter cultura. Déspotas, por serem indivíduos, a tinham. Plebe, massa, não tem.
A (rósea) Alma do Homem sob o Socialismo
O homem abraçado pelo sistema socialista, segundo Oscar Wilde, viveria no além do paraíso. Os românticos, como o tão por ele citado Byron, não teriam mais motivos para buscar a complitude na morte, nem os católicos para correr pela salvação. Dez minutos de socialismo valeriam uma eternidade no inferno, se é que me entendem… Mas não resultaria em chamas eternas, ah, não. Nesse sistema, todos seriam bons cristãos, posto que ele próprio assim os moldaria. E não haveria necessidade, em absoluto, de se haver uma religião cristã para salvar a convivência.
O livro prende a atenção do leitor, de início, com afirmações pertinentes e deveras interessantes. Dar esmola é contribuir com a miséria, a moda do ’pensar no miserável’ é qualidade capitalista, o capitalismo não exalta o ser, mas sim sua fusão com o ter etc. Somos abatidos por palavras que nos guiariam pelos caminhos da análise crítica e da denúncia, com paradas em mil e uma novas verdades antes impensadas e, ao final das primeiras páginas, acertados por uma muralha de devaneios e sonhos.
Muito piedoso e condizente com a época do ‘entendendo o próximo’, Wilde protege o criminoso. Alega que este não passa de uma vítima da sociedade e que, em condições materiais de existência dignas, seria uma pessoa íntegra. O rico e o pobre, todos, são vítimas da ideologia do acúmulo de bens, que não os permite ser o ideal de homem que o autor tanto almeja: o indivíduo peculiar em si, sem nenhuma preocupação. O homem deveria ser autêntico, ser-se, sem mentiras.
Curioso que, para dar forças à sua crença, Wilde faz um paralelo com os ensinamentos e atos de Jesus Cristo. Interpreta sua mensagem como sendo “sê tu mesmo” e basta. Qualquer bom leitor deve perceber que o “não mintas” de Cristo, apesar de absoluto, pressupõe o complemento “e que tua verdade seja a minha”. Ou seja, criemos uma legião de pessoas tão sinceras quanto o messias e a ele tão estarrecedoramente idênticas… Que é não somente ao que Wilde visa, mas também a natureza humana segundo sua visão. No decorrer da obra, somos arranhados por sua profunda crença no bom selvagem, ou mais que isso, no selvagem cristão. O homem no socialismo, onde teria a plena liberdade para tudo, seguiria de acordo com os ensinamentos de cristo, mesmo que a religião católica não vigorasse sobre sua cabeça, segundo as próprias palavras do autor.
E no meio desse caos massificado, a máxima expressão do individual se estabelecerá. Apenas me pergunto como. Sobra, no ser, a singularidade de pensamentos conjunturais, reflexões pessoais e afins, ou seja, trabalho intelectual, que aliás o autor tanto exalta e diz ser o importante. No entanto, por experiência própria ou observação de outrem, sabe-se bem que o que movimenta a reflexão é a imposição de um problema. Nenhum amado amante vai querer desmerecer o amor como disforme e sublime para algo acerca do que se reflete. Ele refletirá sobre o amor quando dele se vir privado. A pergunta apenas se coloca quando surge a dúvida, e a dúvida brota da inquietação, por Wilde tão execrada. Então onde, no mundo dos sonhos desse inglês, se encaixaria a individualidade? Ademais, o que o faz crer que um indivíduo que nunca existiu é o máximo do ser humano? E, se ele crê nas condições materiais de existência, como pode crer numa essência que precede a existência? Ele próprio admite que o bandido, em outras condições, não o seria; que o rico, em outras condições, roubaria. Mas, absolutamente livre do mundo, o homem seria um cristão. Como se livra um homem de um contexto? Como dizer que o socialismo não seria também um contexto, mas uma condição absoluta? E mais importante, como, raios, chegar a esse estado tão almejado? Parar de desejar, único meio. Os budistas o tentam há séculos, sem sucesso.
Enfim, Oscar Wilde tinha a inteligência para ser um grande crítico, mas que deparou-se totalmente ofuscada com uma imaginação eufórica e doentia. Ah, como os sonhos acabam com um ser humano.